Aceitam-se sugestões
Peça baseada em fatos reais! :)
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Texto da peça
Personagens
Conselheiro/Garçom
Mediador
Lorde Inglês Decaído
Francês irredutível
Oriental Zen
Latino
Negro/Mulher (representante de “minorias”)
Povo (4 espectadores)
Prefácio
Conselheiro/Garçom: Antes de começarmos este espetáculo, convém realizar algumas advertências. Em primeiro lugar, é mister esclarecer que este é um espetáculo extremamente verborrágico, especialmente em seu primeiro ato, visto ser este um vício, para não dizer falha, do autor. Mas rogo-vos que vos munais de paciência, pois nos atos subsequentes teremos ação propriamente dita para aqueles mais afeitos a esta que à retórica. Atenderemos a todos os gostos, garanto-vos, pois eu pessoalmente negociei com o autor para que isto ocorra. Haverá violência, sangue, quiçá uma violação, para que aqueles mais acostumados a uma dramaturgia alicerçada em perseguições de carros, balas zunindo, pontapés e socos, possam deleitar-se também e, prometo-vos, que haverá ainda cenas de nudez, visto que tais cenas são a motivação de muitos dos frequentadores do teatro. Da mesma forma, não se escapará demasiado da estrutura de uma narrativa tradicional, cujo primeiro ato trará a exposição da situação que conduzirá ao conflito do segundo ato para, enfim, solucionar-se no desfecho ou terceiro ato. Bem, sem mais delongas, faço saber que doravante serei um garçom e não mais farei advertências, a menos que se faça necessário no decorrer do espetáculo. Ab imo pectore, espero que vos deleiteis.
Ato I – Os debates
Cenário: Mesa redonda com cinco cadeiras. Os integrantes da mesa devem ignorar completamente a presença do público debatendo entre eles e de costas para a platéia.
Mediador: Hic et nunc. Estamos hoje aqui reunidos para dar início ao ciclo de debates Revoluções com os top five intelectuais do mundo inteiro ad hoc selecionados tendo como precípuo critério sua produção analítica acerca do tema que nos ocupa, a saber, os processos revolucionários na atualidade. Antes mesmo de começar e realizar uma breve apresentação dos integrantes – digo breve, pois certamente a fama os precede e dispensa maiores intróitos sobre sua exitosa trajetória acadêmica e profissional – gostaria de descrever a pauta deste encontro, cujo término, atrevo-me a dizer, ficará laureado ad perpetuam rei memoriam, traçando um verdadeiro divisor de eras. Neste ano em que se completam os 220 anos da revolução francesa, progenitora do estado moderno; 50 da cubana, gestora máxima dos mitos emancipatórios da atualidade e, infelizmente para o arredondamento matemático, 92 anos da revolução russa, berço da grande desilusão do os anos 90, podemos sentir no âmago desta grande sociedade global a incipiente ebulição da insatisfação com a ordem estabelecida, mostrando-se um corpo claramente cheto fuor, commodo dentro. Enfim, a pauta deste sui generis encontro resumir-se-ia na seguinte pergunta: Podemos hoje falar em revolução ou revoluções, referindo-nos aos múltiplos movimentos de pressão para transformação social, dentro de um cenário marcado pelo individualismo e pela total indiferença em relação à dor alheia?
Lorde Inglês Decaído (ergue o braço): Permite-me um primeiro aparte, ilustríssimo colega Mediador?
Mediador: Claro, excelentíssimo Lorde Inglês Decaído, proceda.
Lorde Inglês Decaído: Obrigado. Se me sinto impelido a este precoce aparte, faço-o para esclarecimento de um termo indevidamente, em meu humilde parecer, utilizado em sua irretocável, com exceção do termo objeto deste aparte, exposição da pauta de nosso promissor debate. O termo empregado para descrever o difícil cenário que nos afronta, a saber, Individualismo, é no mínimo impreciso. Devo esclarecer que em meu limitado compreender (gesto de humildade) da situação atual, o cenário ao que o ilustríssimo colega se refere não está marcado pelo individualismo e sim pelo egoísmo. A distinção dos termos é necessária, e insistirei ad extremum neste ponto, pois se há algo que justamente não tem espaço nesta sociedade é o individualismo. O individualismo é a realização plena do indivíduo, de sua personalidade, de seu ser, não, evidentemente, por cima, da individualidade alheia, mas sua realização é condição sine qua non para uma convivência autêntica entre membros de uma comunidade. Em nossa sociedade, esta individualidade está plenamente anulada e sujeita à coletividade, à opinião pública, ao terceiro e pior de todos os tiranos, aquele que tiraniza o corpo e a alma, o POVO! A massa e a unanimidade! Cada indivíduo é hoje a reprodução exata de uma fórmula perfeitamente calculada por um sistema, maravilhosamente executada pela publicidade, pelos meios de comunicação, pelo cinema, pelos formadores de opinião. Recuso-me a aceitar falar em individualismo em semelhante contexto. Sugiro, portanto, caso os ilustres colegas desta mesa estejam de pleno acordo, que substituamos o termo individualismo por egoísmo. E, para aqueles que ainda possam recalcitrar em distinguir os termos, tendo-os como sinônimos, lembro, que o individualismo é viver como se deseja, enquanto egoísmo é querer que os outros vivam como se deseja! Tenho dito.
Mediador: Penso não haver inconveniente em proceder a tal substituição. Alguém se opõe?
Integrantes da mesa se entreolham, congratulam, murmuram em acordo, e todos concordam.
Mediador: Neste caso, permitam-me reformular o enunciado da pauta deste encontro: Podemos hoje falar em revolução ou revoluções, referindo-nos aos múltiplos movimentos de pressão para transformação social, dentro de um cenário marcado pelo EGOÍSMO e pela total indiferença em relação à dor alheia?
Francês irredutível (erguendo a mão): Peço, por gentileza, que se me conceda a palavra por um instante, antes de procedermos, pois, a exemplo do ilustríssimo colega Lorde Decaído Inglês, cuja notação fora assaz pertinente, tenho uma pequena, não obstante relevante, objeção. Tal pontilhismo refere-se justamente ao final de nossa, permito-me aqui fazê-la nossa com um espírito colaborativo, questão norteadora. Não julgo pertinente falar em indiferença perante à dor alheia e o que me preocupa em finalizar deste modo a pergunta são os dois termos empregados, a saber, dor e alheia. Primeiramente, julgo inadequado referir-se a uma marca específica de nossa sociedade como dor, visto que a dor remete prontamente à dor física, a qual nem sempre constitui o mote da revolta. Ad argumentandum tantum, se de um incômodo devemos falar, sugiro que o tratemos por sofrimento e, ejusdem farinae, peca também o termo alheia. Não se trata aqui de mensurar ou determinar quem sofre em nossa sociedade, quanto sofre, e como mitigar filantropicamente tal sofrimento. O sofrimento é a engrenagem mesma deste sistema que desconsidera o humano em sua lógica e, portanto, sujeita a todos nós, de todas as classes e meios a um comportamento inumano. Como no Panóptico de Bentham, todos estamos sob o forte controle do poder invisível e informe, rudis indigestaque moles. Bom, sem delongar-me mais, proponho que abandonemos o referido adjetivo e troquemos no enunciado "dor" por "sofrimento". A propósito, já que de martírio falamos, não seria demais, afinal o propósito que nos move tem um quê de colossal, requerer algo pour boire, pois humanos somos, sede temos.
Mediador: Bem, se todos estiverem de acordo, proponho-me a refrasear a pergunta e, quanto ao requerimento do ilustre colega Francês irredutível, penso não haver nenhum inconveniente.
Integrantes da mesa se entreolham, congratulam, murmuram em acordo, e todos concordam. Garçom sai para buscar bebidas, vinho, sucos, whisky, etc.
Mediador: Bom, neste caso, a nova pauta deve ser: Podemos hoje falar em revolução ou revoluções, referindo-nos aos múltiplos movimentos de pressão para transformação social, dentro de um cenário marcado pelo EGOÍSMO e pela total indiferença em relação ao SOFRIMENTO generalizado?
Garçom serve as bebidas.
Oriental Zen (erguendo delicadamente a mão): Perdão, rogo-vos, por também interromper o fluxo deste frutuoso momento, para expor uma inquietação que me preme o peito. Há no já enunciado um excedente que vislumbro ser um germe de discórdia. Apreciaria que se suprimisse o adjetivo “social" que sucede o termo transformação, que nada mais é que a substantivação do ato de transformar. Não há transformação social sem uma transformação individual e, embora suspeite que alguns de meus nobres interlocutores ocidentais poderão questionar qual das duas transformações deveria primar, não julgo possível dissociar uma da outra, razão pela qual carece adjetivar o termo transformação que em si preserva sua unidade.
Integrantes da mesa se entreolham, congratulam, murmuram em acordo, e todos concordam.
Francês irredutível: Não vejo problema na sugerida supressão, pois ampliaremos quantum sufficit este polêmico ponto. Contudo, antes de prosseguirmos, suplico que se atente ao fato de que beber quantum sufficit também poderá ser útil para motivar um locuente debate, mas somente se os sucos gástricos não acidarem o benevolente líquido por falta de uma atividade adequada. Sugiro que, com a devida temperança, acompanham-se as bebidas com ligeiros petiscos.
Integrantes da mesa se entreolham, congratulam, murmuram em acordo, e todos concordam. Garçom sai para buscar petiscos.
Mediador: Aceitas as considerações do ilustre colega Oriental Zen, a nova pauta assim se lerá: Podemos hoje falar em revolução ou revoluções, referindo-nos aos múltiplos movimentos de pressão para TRANSFORMAÇÃO, dentro de um cenário marcado pelo EGOÍSMO e pela total indiferença em relação ao SOFRIMENTO generalizado?
Latino: Sinto-me moralmente compelido, mas também, à vontade ou ad libitum para pronunciar-me a respeito do enunciado que nos atém. Redunda, em meu pobre entender, ou incorre-se em um pleonasmo utilizar a conjunção alternativa “ou” para opor, ou no mínimo, duplicar o termo revolução a revoluções, visto que uma genuína transformação social, perdão, transformação requer um ato singular, unificado e unificante que só se pode traduzir por revolução.
Francês irredutível: (com a boca cheia) Discordo!
Latino: Permita-me concluir, contudo, caro colega, ad argumentandum tantum. Tenho certeza que a tempo podereis tirar-me da obscureza, mas, ainda assim, quisera desenvolver meu ponto.
Francês irredutível: Claro, prossiga.
Latino: Não é um ponto tão relevante se pensarmos na transformação individual, contudo, e neste aspecto, devo desculpar-me com o ilustríssimo colega Oriental Zen, pois sim é de notória significância o adjetivo social, é crucial pensar em um projeto único.
Francês irredutível: Sabemos, pela experiência histórica, o que provocaram os projetos únicos, opressões tirânicas, déspotas que se julgavam capazes de interpretar os anseios do coletivo e ignoravam todas as diferenças.
Latino: Sabemos, também, não obstante, que as diferenças serviram muito bem ao sistema como subterfúgio para fragmentar em pequenas lutas aquela que deveria ser a luta precípua capaz de abalar o alicerce da estrutura do sistema.
Francês irredutível: Desculpe-me, mas o que chamas de fragmentação, considero multiplicidade que contempla, outrossim, as diferentes demandas.
Latino: Estou de acordo, caro Francês irredutível, mas, ainda assim, é preciso ressaltar que ver a sociedade desta forma incorre em certos riscos de que diferença se traduza em desigualdade, que a “multiplicidade” se traduza em grupos incomunicáveis guerreando por seus interesses próprios apenas. Deve haver algum nexo capaz de entretecer os diferentes movimentos de pressão, caso contrário o sistema é capaz de cooptar todos e cada um deles.
Lorde Decaído Inglês: Permiti-me que interfira em vossa cada vez mais acalorada altercação.
Francês irredutível: Não se trata de altercação, é apenas um amigável esclarecimento conceitual, ad solemnitatem, necessário para o sadio andamento deste histórico encontro.
Latino: Exatamente, ilustre colega.
Lorde Inglês Decaído: Neste caso, obrigado, pois me sinto mais ad libitum para intervir em vosso amigável refinamento conceitual. Estou de acordo com o caro colega Francês irredutível que um projeto unificado de revolução corre o risco de sujeitar as diferenças ao coletivo, à norma, e, outrossim, inumar definitivamente o potencial de desenvolvimento do indivíduo. Contudo, é pertinente que deva estabelecer-se um nexo entre todos os movimentos de revolta, conforme assevera nosso ilustre colega Latino. A propósito, se me permitis um aparte, delicioso este queijo de cabra francês.
Latino: Sim, delicioso, é verdade.
Oriental Zen e Negro/Mulher concordam.
Francês irredutível: Obrigado.
Lorde Inglês Decaído: Destarte, prosseguindo com o refinamento conceitual, parece-me útil estabelecer como nexo ou critério de unificação dos múltiplos movimentos a opressão. O fator em comum é justamente o caráter de oprimido que assola cada um desses movimentos.
Francês irredutível: Há, não obstante, um importante impeditivo para utilização desse critério, ilustre colega. A linha que separa opressores de oprimidos é muito tênue e dinâmica, um mesmo grupo pode ter o papel de oprimido em um determinado contexto e de opressor em outro. A classe média, ad exemplum, é uma espécie de colchão amortecedor que oprime e é oprimido ao mesmo tempo. Como utilizar nesse sentido a opressão num sistema em que o próprio opressor inexiste e, ao mesmo tempo, é onipresente?
Latino: Além disto, é um critério muito laxo, que, embora contemple as diferenças, também possibilita enormes aberrações. Imaginemos que promovamos este encontro com o seguinte mote, encontrar os caminhos para um mundo melhor. Se não delinearmos certos critérios únicos para distinguir o que é um mundo melhor, abrimos um guarda-chuva para as maiores contradições. Ad exemplum, imaginemos que um grupo partidário do nazismo e fascismo se sinta oprimido por não poder expressar livremente suas ideias na sociedade ocidental atual e que, ao mesmo tempo, considere, segundo sua ideologia própria, que um mundo melhor implique o extermínio de judeus, negros, ciganos, árabes e qualquer raça não ariana, deveríamos convidá-lo para participar e debater conosco, segundo tal lato critério?
Agitação entre todos os integrantes.
Oriental Zen: Caros colegas, penso que podemos chegar a um consenso se abolirmos a conjunção alternativa “ou” e, em vez, de falar em revolução ou revoluções, podemos simplesmente optar pelo plural, pois teria a qualidade da ambiguidade de tratar-se de um conceito de amplitude histórica que contempla tanto os diversos processos revolucionários, fracassados ou não, ao longo da história como a possibilidade de incluir a multiplicidade de demandas atuais.
Integrantes da mesa se entreolham, congratulam, murmuram em acordo, e todos concordam.
Oriental Zen: A propósito, devo acrescentar, ao aparte do ilustre colega Lorde Inglês Decaído, que este vinho é um verdadeiro deleite. (sacudindo a garrafa vazia)
Integrantes da mesa se entreolham, congratulam, murmuram em acordo, e todos concordam. Garçom sai para buscar mais vinho.
Mediador: Bem, se não há mais objeções, podemos reformular nossa pauta do seguinte modo: Podemos hoje falar em REVOLUÇÕES, referindo-nos aos múltiplos movimentos de pressão para TRANSFORMAÇÃO, dentro de um cenário marcado pelo EGOÍSMO e pela total indiferença em relação ao SOFRIMENTO generalizado?
Latino mostra-se algo azedo, mas face à posição do Francês irredutível, não ousa prolongar o debate.
Mediador: Alguma outra objeção?
Todos olham para o Negro/Mulher com um olhar algo intimidador e este apenas gesticula que nada tem a acrescentar.
Mediador: Neste caso, exare-se a pauta e procedamos com as apresentações.
Os integrantes aplaudem exultantes ao enunciado final da pauta.
Francês irredutível: Desculpe-me por uma nova intervenção, mas antes de prosseguirmos com as apresentações, sugiro que façamos um pequeno intervalo, visto que não fora pouco o dispêndio mental e, por que não físico, requerido até o momento. Será útil para o sadio andamento da sessão, um justo e merecido descanso para um café, um cigarro e um pouco de ar.
Integrantes da mesa se entreolham, congratulam, murmuram em acordo, e todos concordam.
Mediador: Estaria de acordo, mas é preciso consultar com nossos apoiadores para saber como estamos de tempo.
Lorde Inglês Decaído: Se for o caso, proponho que eliminemos as apresentações. Afinal, de minha parte, sem vaidade alguma, prefiro que minhas ideias falem por mim, já que homens de ideias somos e os homens de ideias não devem desgastar-se com falar de homens, mas sim de ideias.
Francês irredutível: Estou de acordo. Não me incomodo em permanecer humildemente anônimo ante minhas próprias ideias.
Negro/Mulher: Para além disso, não me incluo, pois recomendam a etiqueta e a modéstia, mas como bem aclarou o ilustre mediador, vossa fama vos precede e dispensa maiores intróitos.
Integrantes da mesa se entreolham, congratulam, murmuram em acordo, e todos concordam.
Mediador: Neste caso, estando todos de acordo, eliminemos as apresentações e procedamos a um intervalo de não mais que quinze minutos.
Integrantes se levantam e afastam para o fundo do palco, onde confraternizam. Garçom se dirige ao público como conselheiro novamente.
Conselheiro/Garçom: Desculpai-me por esta imprevista pausa, mas há quem alegue que o trabalho, a faina intelectual exaure tanto, se não mais, que o labor físico e braçal. Peço-vos que compreendais, portanto, a humana necessidade de um pequeno descanso de nossos heróis. Claro está que os quinze minutos referidos pelo mediador não serão efetivamente quinze e mediante alguma elipse ou passagem de tempo o autor nos conduzirá em tempo à prometida e tão esperada ação. Para os mais mórbidos, violência e sangue, para os mais libidinosos, nudez e sexo. Mas, paciência, rogo-vos, tudo a seu tempo.
Conselheiro/Garçom sai do palco.
Fim do primeiro ato
I Ínterim
Negro/Mulher sai do grupo dos debatedores que ficam ao fundo comendo biscoitos, queijo, sucos e vinho.
Conselheiro/Garçom: Aproveitaremos este inevitável ínterim para passar algumas mensagens de nossos apoiadores. Com vocês, o jogo dos slogans!!
Negro/Mulher toma a frente do palco, luzes se intensificam sobre ela, cai papel picado sobre ela.
Negro/Mulher: Bem-vindos ao jogo dos slogans!!!!!! O jogo que dá prêmios incríveis e testa seus conhecimentos. (Negro/Mulher escolhe algum espectador do público) Vejamos quem participará hoje do jogo dos slogans. Qual é seu nome?
Espectador: (Diz nome, por exemplo, Lúcia).
Negro/Mulher: Muito bem, Lúcia. Você está preparada? Preparada para ganhar prêmios incríveis? Você terá um minuto para responder o máximo de perguntas que puder. Você pode ter até três erros e deve responder a pergunta dourada para ganhar o prêmio principal! Está pronta?
Espectador: Sim.
Negro/Mulher: Então, vamos lá! Valendo, tempo! De quem é este slogan: Bem-vindo à vida?
Espectador: Eco sport!
Negro/Mulher: Dedicação total a você!
Espectador: Casas Bahia.
Negro/Mulher: Muito bem. Desce macio e reanima.
Espectador: Dreher!
Negro/Mulher: Porque a vida é agora.
Espectador: Visa!
Negro/Mulher: A gente se vê por aqui!
Espectador: Globo!
Negro/Mulher: Um país de todos!
Espectador: Brasil!
Negro/Mulher: Refresca até pensamento!
Espectador: Brahma!
Negro/Mulher: Yes, we can!
Espectador: Obama!
Negro/Mulher: Com alguma coisa em comum!
Espectador: Free!
Negro/Mulher: Mil e uma utilidades!
Espectador: Bombril!!
Negro/Mulher: Muito bem, só falta a pergunta dourada! Quer parar ou continuar?
Se espectador quiser parar, ganha o prêmio consolação: um maço com o rótulo de todas as marcas, para montar seu próprio álbum. Se decidir continuar, segue a pergunta dourada:
Negro/Mulher: A pergunta dourada: O que é ser feliz?
Espectador provavelmente não saberá responder, tentará dizer muitas coisas ou ficará em silêncio. O tempo deve se esgotar e espectador perde.
Negro/Mulher: Quer pedir ajuda de alguém? Rápido que o tempo está acabando.
Espectador poderá pedir ajuda ou não, de qualquer maneira, não saberá responder e perderá.
Negro/Mulher: Ahhhhh... Faltou tão pouco. A resposta certa era: Ser feliz é comprar no Pão de Açúcar, lugar de gente felizzzzzzzzz!!!!!!!!
Negro/Mulher entrega prêmio consolação, maço de rótulos dos patrocinadores para criar seu próprio álbum. Caso, por qualquer razão, o espectador saiba responder e diga Pão de Açúcar, o prêmio será o mesmo, mas não mais apresentado como prêmio de consolação.
Negro/Mulher: E o nosso jogo dos slogans chegou ao fim, até a próxima semana! Lembrem-se de visitar o nosso site revolução joinha ponto com, sem acentos e cedilha, e comprar nossas camisetas insurrectas, temos várias estampas, Che, Fidel, Zapata, Sandino, Rosa de Luxemburgo, Lênin, Trotsky, Marx e muitos outros!!
Ato II – O blablabla
Debatedores retornam à mesa.
Mediador: Bom, às vezes parece que o tempo voa, mas tido o justo e merecido descanso, retomemos nosso histórico debate, divisor de águas da era moderna. Para tanto, repito a pauta deste encontro e cedo a palavra a quem quiser ser voluntário para dar início aos trabalhos. “Podemos hoje falar em REVOLUÇÕES, referindo-nos aos múltiplos movimentos de pressão para TRANSFORMAÇÃO, dentro de um cenário marcado pelo EGOÍSMO e pela total indiferença em relação ao SOFRIMENTO generalizado?”
Quem se voluntaria a dar início aos debates.
Todos levantam a mão ao mesmo tempo, com exceção do Negro/Mulher que demora um segundo antes de levantar.
Mediador (confuso): Creio que devemos estabelecer algum critério... alguém tem alguma sugestão?
Latino: Pitoco!
Francês Irredutível: Unidunitê!
Lorde Inglês Decaído: Mamãe mandou!
Oriental Zen: Palitinhos!
Negro/Mulher: Joquempó!
Mediador: Ok. Penso que podemos tentar o Unidunitê! Unidunitê, o escolhido foi você. (apontando para o francês irredutível).
Francês irredutível mostra-se satisfeito, os demais ficam resignados.
Francês irredutível: Um primeiro ponto que gostaria de destacar refere-se exatamente a
III Ato – O levante dos bárbaros
Do meio do público, começam a levantar-se alguns espectadores (atores misturados ao público).
Espectador 1: Chega de palhaçada! O que é isso? É teatro ou não?
Espectador 2: É, isso mesmo! A gente veio aqui para entreter-se, então, entretenham-nos!
Espectador 3: É, que porra é essa? Chega de blablabla, queremos a ação, a violência...
Espectador 4: A nudez, o sexo! Dionísio, Afrodite!!
Espectador 1: Ou nosso dinheiro de volta!
Espectador 2: Nós, espectadores queremos ver teatro! Somos o povo e exigimos que seja dado ao povo o que é do povo!
Espectador 3: Abaixo os personagens chatos!
Espectador 4: Morte aos diretores que se acham!!
Espectador 1: Morte aos dramaturgos que não pensam no povo!
Todos juntos começam a entoar em tom ameaçador:
Espectadores: Os espectadores, unidos, jamais serão aborrecidos!
Conselheiro/Garçom: Acalmai-vos, ó espectadores, sei que estais ávidos por sangue e carne! Mas rogo-vos um pouco mais de paciência!
Espectador 1: Chega!! Já se esgotou nossa paciência, queremos ação!
Espectadores começam a avançar rumo ao palco em câmera lenta enquanto cantam “Vem, vamos embora que esperar não é saber; quem sabe faz a hora não espera acontecer”. Cada um leva amarrado a si dois manequins para dar uma impressão de volume do levante. Os debatedores assustados começam a reagir cada um a seu modo. Lorde Inglês Decaído mete-se embaixo da mesa, Latino-americano corre de um lado ao outro, Negro/Mulher se junta à multidão, Oriental Zen tenta meditar, Francês irredutível fica paralisado e urina nas calças, Mediador pede calma e ordem. O "Povo" toma a mesa e traz das coxias a Guilhotina. Cada um dos debatedores é detido pelo "Povo". Há alguns confrontos, Negro/Mulher é estuprada pelo Povo de forma bastante farsesca, sem nenhuma nudez. Todos são finalmente detidos.
Espectador 1: Agora que assumimos o comando deste espetáculo, a ação começará sem mais delongas, sangue jorrará, cabeças rolaram! (Aponta à guilhotina) Que tenham inícios os trabalhos!
Espectador 2: O primeiro dos réus é o Senhor Francês Irredutível. Acusado de manter discursos progressistas absolutamente paralisantes e ao mesmo tempo mostrar-se completamente inerte, pensa que sua tradição intelectual francesa é o aval de sua incontestabilidade. Simpatiza com suas próprias vítimas, como se sorrir fizesse o dente dos vampiros algo menos temível. O povo desta comarca o considera culpado dos crimes acima e o condena a pena máxima, a saber, a morte por meio de decapitação na guilhotina, que muito apropriadamente foi inventada por um seu conterrâneo.
Espectador 1: O senhor deseja dizer algo em sua defesa?
Francês irredutível: (menos articulado que anteriormente) Entendo vossa ira e solidarizo com ela, peço-vos, contudo, que me poupeis, pois tereis em mim um guia valioso para o estabelecimento de uma nova ordem, afinal não se pode desprezar tantos anos de história assim sem mais nem menos! Somos os inventores da igualdade, liberdade e fraternidade, dos pilares da democracia moderna. Senhores, podemos dialogar! Não vos deixei cegar pela ira! Também inventamos os melhores vinhos! Senhores, por favor... Cortai-me os pés! A cabeça não, Senhores! Eu também sou comunista!
Espectador 3: É muito fácil ser comunista em Paris!
Espectador 4: (quase num murmúrio) Esperem...
Francês irredutível é conduzido à guilhotina e, apesar de suas súplicas e da tentativa de interferir do espectador 4, é executado. Sua cabeça rola (ver sugestão cenográfica anexa para a guilhotina).
Espectador 1: O próximo réu é o Lorde Inglês Decaído. Vampiro de ancestrais tradições, suga-nos o sangue e, mesmo com toda sua decadência, espera que respeitemos sua nobreza. Fala de Individualidade e Individualismo, mas pode vislumbrá-la somente naqueles que tem seu sangue azul. Veremos agora se seu sangue é realmente azul ou se como todos nós, defeca de medo e sangra o plasma espesso e avermelhado da dor.
Espectador 2: Sua culpa é inegável e sua condena é a morte na guilhotina! Quer dizer últimas palavras?
Lorde Decaído Inglês: Eu... não... eu entendo... senhores... Imagine all the people... living on their own... please, sirs!
Espectador 4: Não... parem...
Ninguém dá ouvidos ao espectador 4, e a execução continua. Cabeça rola ao lado da cabeça do Francês.
Espectador 1: (mais animado) Passemos ao próximo réu! O Latino.
Latino: YO??
Espectador 2: Sim, o senhor. É latino quando lhe convém, mas faz parte da mesma dinastia de vampiros que seus sucessores na guilhotina! Da mesma corja, é filhote deles e é ainda pior, pois vive de puxar-lhes o saco, de imitá-los, sua pele morena transpira e faz escorrer nojentas gotas mescladas com pó de arroz. Culpado! Convicto! À guilhotina!
Espectador 4: Não... isso não está certo...
Latino: Não! Eu sou explorado, como vós, também sou povo, sou latino, não me arrancai a cabeça, pois será sangue de um irmão na dor.
Espectador 3: Mais um personagem chato condenado! À guilhotina!
Latino é executado e sua cabeça rola com a dos demais. Voltam-se para o Oriental Zen que apenas medita.
Oriental Zen: Ôhmmmm...
Espectador 1: Mais um personagem deve morrer exemplarmente para que nenhum outro dramaturgo ouse criar figuras tão tediosas.
Oriental Zen: Ôhmmmm...
Espectador 2: Sim! Morte ao Oriental Zen!
Oriental Zen: Eu??? Por quê? Não fiz mal a ninguém, só como arroz integral e vivo no Nirvana. Ôhmmmm, acho que cada um tem seu caminho, seu carma. Não podemos mudar isso!
Espectador 4: Parem, não podemos continuar...
Oriental Zen é executado e sua cabeça rola ao lado da cabeça dos anteriores.
Espectador 1: O mundo já está quase limpo da infectante e pestilenta presença de sangue-sugas hipócritas. Faltam apenas dois!
Negro/Mulher: Dois?!? Por quê? Eu também sou minoria, sou oprimido como negro, oprimida como mulher, e agora decapitada? Não é justo! Além do que eu só queria dançar! Acho que devemos buscar outras formas de expressão para não submetermo-nos às tradições arianas e machistas dos dominadores! Fora! Morte aos personagens chatos! Vamos dançar!
Negro/Mulher é executado e sua cabeça rola com as demais. Tudo diante do olhar atônito do Espectador 4.
Mediador: Eu... eu sou apenas o mediador! Eu nem tenho opinião formada sobre nada! Se sou chato, entediante, é porque devo ser neutro, imparcial... Não se pode matar o Mediador, quem vai mediar vossas discussões? Sou eu! Não me matem!
Mediador é executado e sua cabeça rola com as demais.
Ato IV – Reconstrução
Conselheiro/Garçom: Finda a destruição é hora da reconstrução, e é este o momento mais tortuoso deste labirinto. Aqui retornam as tradições, as idiossincrasias, os vícios. Vejamos como se saem estes?
Espectador 1: Estão todos mortos...
Espectador 2: O que fazemos agora?
Espectador 3: Precisamos definir algumas metas.
Espectador 1: (aproxima-se da mesa e prova o queijo de cabra) Hummm, bom o queijo...
Espectador 2: (prova o queijo também) Hummm, é ótimo...
Espectador 3: (sentando-se e tomando um gole de vinho) O vinho também é uma delícia... (vê que a garrafa está vazia). Garçom! (estala os dedos e pede outra garrafa).
Garçom sai em busca de mais vinho. Os outros dois se sentam, Espectador 4 olha tudo atônito.
Espectador 1: (falando com a boca cheia) Acho que deveríamos definir uma pauta para este momento fundamental. Aqui se fundarão as bases do novo teatro, da nova sociedade, do novo! Viva o novo!! O sangue que jorrou não foi embalde e ex nunc o mundo será outro.
Espectador 2: Proponho que o senhor, ou melhor, vossa excelência se encarregue da pauta, visto que domina com destreza a oratória.
Espectador 3: Secundado.
Espectador 1: Obrigado, ilustríssimos colegas. (para o espectador 4) E o senhor, não se unirá a nós?
Espectador 4: Não percebem? Todo esse sangue derramado? Todas as vidas ceifadas para quê? Para sermos como eles?
Espectador 1: Não somos como eles! E os fins justificarão os meios, as futuras gerações nos agradecerão!
Espectador 4: Não, os meios determinarão os fins!
Espectador 2: Proponho que prossigamos com a definição da nossa pauta, já que estamos ad hoc reunidos.
Espectador 3: Sim, e proponho como pauta preliminar, caso vossas excelências estejam de acordo, seja a respeito da obrigação que toda peça de teatro deverá ter de cumprir seus objetivos dramáticos, a saber, entreter a multidão, a plebe!
Espectador 1: Ex nunc toda obra teatral deverá cumprir com duas funções básicas, uma que deve voltar-se aos sentimentos, às emoções, e outra à razão, à crítica! Devemos encontrar o equilíbrio perfeito do que eles querem ver e o que nós queremos dizer.
Espectador 4: Mas nós somos eles! Agora estamos nos tornando outros!
Espectador 3: Proponho que se ponha em votação imediatamente a expulsão deste senhor que parece querer trair nossa luta.
Espectador 2: Apóio a moção do ilustre colega.
Espectador 1: Com meu voto, obtemos maioria e fica determinada a expulsão do Espectador 4 do Comitê dos Espectadores!
Espectador 4: Não posso ser expulso!
Espectador 1: Se quiser pode pegar seu dinheiro de volta.
Espectador 4: Não foi para isso que nos levantamos. Não foi para sermos entediantes e enjoativos como eles. Aliás, por que foi que nos levantamos? Nos levantamos porque somos joguetes de um perverso titereiro que nos embaralha e dispõe a seu bel-prazer. A única forma de libertar-nos é cortar os cordéis, a liberdade é dolorosa, por isso a temeis, não buscai as respostas no passado, mas não o desprezai,
Conselheiro/Garçom
Mediador
Lorde Inglês Decaído
Francês irredutível
Oriental Zen
Latino
Negro/Mulher (representante de “minorias”)
Povo (4 espectadores)
Prefácio
Conselheiro/Garçom: Antes de começarmos este espetáculo, convém realizar algumas advertências. Em primeiro lugar, é mister esclarecer que este é um espetáculo extremamente verborrágico, especialmente em seu primeiro ato, visto ser este um vício, para não dizer falha, do autor. Mas rogo-vos que vos munais de paciência, pois nos atos subsequentes teremos ação propriamente dita para aqueles mais afeitos a esta que à retórica. Atenderemos a todos os gostos, garanto-vos, pois eu pessoalmente negociei com o autor para que isto ocorra. Haverá violência, sangue, quiçá uma violação, para que aqueles mais acostumados a uma dramaturgia alicerçada em perseguições de carros, balas zunindo, pontapés e socos, possam deleitar-se também e, prometo-vos, que haverá ainda cenas de nudez, visto que tais cenas são a motivação de muitos dos frequentadores do teatro. Da mesma forma, não se escapará demasiado da estrutura de uma narrativa tradicional, cujo primeiro ato trará a exposição da situação que conduzirá ao conflito do segundo ato para, enfim, solucionar-se no desfecho ou terceiro ato. Bem, sem mais delongas, faço saber que doravante serei um garçom e não mais farei advertências, a menos que se faça necessário no decorrer do espetáculo. Ab imo pectore, espero que vos deleiteis.
Ato I – Os debates
Cenário: Mesa redonda com cinco cadeiras. Os integrantes da mesa devem ignorar completamente a presença do público debatendo entre eles e de costas para a platéia.
Mediador: Hic et nunc. Estamos hoje aqui reunidos para dar início ao ciclo de debates Revoluções com os top five intelectuais do mundo inteiro ad hoc selecionados tendo como precípuo critério sua produção analítica acerca do tema que nos ocupa, a saber, os processos revolucionários na atualidade. Antes mesmo de começar e realizar uma breve apresentação dos integrantes – digo breve, pois certamente a fama os precede e dispensa maiores intróitos sobre sua exitosa trajetória acadêmica e profissional – gostaria de descrever a pauta deste encontro, cujo término, atrevo-me a dizer, ficará laureado ad perpetuam rei memoriam, traçando um verdadeiro divisor de eras. Neste ano em que se completam os 220 anos da revolução francesa, progenitora do estado moderno; 50 da cubana, gestora máxima dos mitos emancipatórios da atualidade e, infelizmente para o arredondamento matemático, 92 anos da revolução russa, berço da grande desilusão do os anos 90, podemos sentir no âmago desta grande sociedade global a incipiente ebulição da insatisfação com a ordem estabelecida, mostrando-se um corpo claramente cheto fuor, commodo dentro. Enfim, a pauta deste sui generis encontro resumir-se-ia na seguinte pergunta: Podemos hoje falar em revolução ou revoluções, referindo-nos aos múltiplos movimentos de pressão para transformação social, dentro de um cenário marcado pelo individualismo e pela total indiferença em relação à dor alheia?
Lorde Inglês Decaído (ergue o braço): Permite-me um primeiro aparte, ilustríssimo colega Mediador?
Mediador: Claro, excelentíssimo Lorde Inglês Decaído, proceda.
Lorde Inglês Decaído: Obrigado. Se me sinto impelido a este precoce aparte, faço-o para esclarecimento de um termo indevidamente, em meu humilde parecer, utilizado em sua irretocável, com exceção do termo objeto deste aparte, exposição da pauta de nosso promissor debate. O termo empregado para descrever o difícil cenário que nos afronta, a saber, Individualismo, é no mínimo impreciso. Devo esclarecer que em meu limitado compreender (gesto de humildade) da situação atual, o cenário ao que o ilustríssimo colega se refere não está marcado pelo individualismo e sim pelo egoísmo. A distinção dos termos é necessária, e insistirei ad extremum neste ponto, pois se há algo que justamente não tem espaço nesta sociedade é o individualismo. O individualismo é a realização plena do indivíduo, de sua personalidade, de seu ser, não, evidentemente, por cima, da individualidade alheia, mas sua realização é condição sine qua non para uma convivência autêntica entre membros de uma comunidade. Em nossa sociedade, esta individualidade está plenamente anulada e sujeita à coletividade, à opinião pública, ao terceiro e pior de todos os tiranos, aquele que tiraniza o corpo e a alma, o POVO! A massa e a unanimidade! Cada indivíduo é hoje a reprodução exata de uma fórmula perfeitamente calculada por um sistema, maravilhosamente executada pela publicidade, pelos meios de comunicação, pelo cinema, pelos formadores de opinião. Recuso-me a aceitar falar em individualismo em semelhante contexto. Sugiro, portanto, caso os ilustres colegas desta mesa estejam de pleno acordo, que substituamos o termo individualismo por egoísmo. E, para aqueles que ainda possam recalcitrar em distinguir os termos, tendo-os como sinônimos, lembro, que o individualismo é viver como se deseja, enquanto egoísmo é querer que os outros vivam como se deseja! Tenho dito.
Mediador: Penso não haver inconveniente em proceder a tal substituição. Alguém se opõe?
Integrantes da mesa se entreolham, congratulam, murmuram em acordo, e todos concordam.
Mediador: Neste caso, permitam-me reformular o enunciado da pauta deste encontro: Podemos hoje falar em revolução ou revoluções, referindo-nos aos múltiplos movimentos de pressão para transformação social, dentro de um cenário marcado pelo EGOÍSMO e pela total indiferença em relação à dor alheia?
Francês irredutível (erguendo a mão): Peço, por gentileza, que se me conceda a palavra por um instante, antes de procedermos, pois, a exemplo do ilustríssimo colega Lorde Decaído Inglês, cuja notação fora assaz pertinente, tenho uma pequena, não obstante relevante, objeção. Tal pontilhismo refere-se justamente ao final de nossa, permito-me aqui fazê-la nossa com um espírito colaborativo, questão norteadora. Não julgo pertinente falar em indiferença perante à dor alheia e o que me preocupa em finalizar deste modo a pergunta são os dois termos empregados, a saber, dor e alheia. Primeiramente, julgo inadequado referir-se a uma marca específica de nossa sociedade como dor, visto que a dor remete prontamente à dor física, a qual nem sempre constitui o mote da revolta. Ad argumentandum tantum, se de um incômodo devemos falar, sugiro que o tratemos por sofrimento e, ejusdem farinae, peca também o termo alheia. Não se trata aqui de mensurar ou determinar quem sofre em nossa sociedade, quanto sofre, e como mitigar filantropicamente tal sofrimento. O sofrimento é a engrenagem mesma deste sistema que desconsidera o humano em sua lógica e, portanto, sujeita a todos nós, de todas as classes e meios a um comportamento inumano. Como no Panóptico de Bentham, todos estamos sob o forte controle do poder invisível e informe, rudis indigestaque moles. Bom, sem delongar-me mais, proponho que abandonemos o referido adjetivo e troquemos no enunciado "dor" por "sofrimento". A propósito, já que de martírio falamos, não seria demais, afinal o propósito que nos move tem um quê de colossal, requerer algo pour boire, pois humanos somos, sede temos.
Mediador: Bem, se todos estiverem de acordo, proponho-me a refrasear a pergunta e, quanto ao requerimento do ilustre colega Francês irredutível, penso não haver nenhum inconveniente.
Integrantes da mesa se entreolham, congratulam, murmuram em acordo, e todos concordam. Garçom sai para buscar bebidas, vinho, sucos, whisky, etc.
Mediador: Bom, neste caso, a nova pauta deve ser: Podemos hoje falar em revolução ou revoluções, referindo-nos aos múltiplos movimentos de pressão para transformação social, dentro de um cenário marcado pelo EGOÍSMO e pela total indiferença em relação ao SOFRIMENTO generalizado?
Garçom serve as bebidas.
Oriental Zen (erguendo delicadamente a mão): Perdão, rogo-vos, por também interromper o fluxo deste frutuoso momento, para expor uma inquietação que me preme o peito. Há no já enunciado um excedente que vislumbro ser um germe de discórdia. Apreciaria que se suprimisse o adjetivo “social" que sucede o termo transformação, que nada mais é que a substantivação do ato de transformar. Não há transformação social sem uma transformação individual e, embora suspeite que alguns de meus nobres interlocutores ocidentais poderão questionar qual das duas transformações deveria primar, não julgo possível dissociar uma da outra, razão pela qual carece adjetivar o termo transformação que em si preserva sua unidade.
Integrantes da mesa se entreolham, congratulam, murmuram em acordo, e todos concordam.
Francês irredutível: Não vejo problema na sugerida supressão, pois ampliaremos quantum sufficit este polêmico ponto. Contudo, antes de prosseguirmos, suplico que se atente ao fato de que beber quantum sufficit também poderá ser útil para motivar um locuente debate, mas somente se os sucos gástricos não acidarem o benevolente líquido por falta de uma atividade adequada. Sugiro que, com a devida temperança, acompanham-se as bebidas com ligeiros petiscos.
Integrantes da mesa se entreolham, congratulam, murmuram em acordo, e todos concordam. Garçom sai para buscar petiscos.
Mediador: Aceitas as considerações do ilustre colega Oriental Zen, a nova pauta assim se lerá: Podemos hoje falar em revolução ou revoluções, referindo-nos aos múltiplos movimentos de pressão para TRANSFORMAÇÃO, dentro de um cenário marcado pelo EGOÍSMO e pela total indiferença em relação ao SOFRIMENTO generalizado?
Latino: Sinto-me moralmente compelido, mas também, à vontade ou ad libitum para pronunciar-me a respeito do enunciado que nos atém. Redunda, em meu pobre entender, ou incorre-se em um pleonasmo utilizar a conjunção alternativa “ou” para opor, ou no mínimo, duplicar o termo revolução a revoluções, visto que uma genuína transformação social, perdão, transformação requer um ato singular, unificado e unificante que só se pode traduzir por revolução.
Francês irredutível: (com a boca cheia) Discordo!
Latino: Permita-me concluir, contudo, caro colega, ad argumentandum tantum. Tenho certeza que a tempo podereis tirar-me da obscureza, mas, ainda assim, quisera desenvolver meu ponto.
Francês irredutível: Claro, prossiga.
Latino: Não é um ponto tão relevante se pensarmos na transformação individual, contudo, e neste aspecto, devo desculpar-me com o ilustríssimo colega Oriental Zen, pois sim é de notória significância o adjetivo social, é crucial pensar em um projeto único.
Francês irredutível: Sabemos, pela experiência histórica, o que provocaram os projetos únicos, opressões tirânicas, déspotas que se julgavam capazes de interpretar os anseios do coletivo e ignoravam todas as diferenças.
Latino: Sabemos, também, não obstante, que as diferenças serviram muito bem ao sistema como subterfúgio para fragmentar em pequenas lutas aquela que deveria ser a luta precípua capaz de abalar o alicerce da estrutura do sistema.
Francês irredutível: Desculpe-me, mas o que chamas de fragmentação, considero multiplicidade que contempla, outrossim, as diferentes demandas.
Latino: Estou de acordo, caro Francês irredutível, mas, ainda assim, é preciso ressaltar que ver a sociedade desta forma incorre em certos riscos de que diferença se traduza em desigualdade, que a “multiplicidade” se traduza em grupos incomunicáveis guerreando por seus interesses próprios apenas. Deve haver algum nexo capaz de entretecer os diferentes movimentos de pressão, caso contrário o sistema é capaz de cooptar todos e cada um deles.
Lorde Decaído Inglês: Permiti-me que interfira em vossa cada vez mais acalorada altercação.
Francês irredutível: Não se trata de altercação, é apenas um amigável esclarecimento conceitual, ad solemnitatem, necessário para o sadio andamento deste histórico encontro.
Latino: Exatamente, ilustre colega.
Lorde Inglês Decaído: Neste caso, obrigado, pois me sinto mais ad libitum para intervir em vosso amigável refinamento conceitual. Estou de acordo com o caro colega Francês irredutível que um projeto unificado de revolução corre o risco de sujeitar as diferenças ao coletivo, à norma, e, outrossim, inumar definitivamente o potencial de desenvolvimento do indivíduo. Contudo, é pertinente que deva estabelecer-se um nexo entre todos os movimentos de revolta, conforme assevera nosso ilustre colega Latino. A propósito, se me permitis um aparte, delicioso este queijo de cabra francês.
Latino: Sim, delicioso, é verdade.
Oriental Zen e Negro/Mulher concordam.
Francês irredutível: Obrigado.
Lorde Inglês Decaído: Destarte, prosseguindo com o refinamento conceitual, parece-me útil estabelecer como nexo ou critério de unificação dos múltiplos movimentos a opressão. O fator em comum é justamente o caráter de oprimido que assola cada um desses movimentos.
Francês irredutível: Há, não obstante, um importante impeditivo para utilização desse critério, ilustre colega. A linha que separa opressores de oprimidos é muito tênue e dinâmica, um mesmo grupo pode ter o papel de oprimido em um determinado contexto e de opressor em outro. A classe média, ad exemplum, é uma espécie de colchão amortecedor que oprime e é oprimido ao mesmo tempo. Como utilizar nesse sentido a opressão num sistema em que o próprio opressor inexiste e, ao mesmo tempo, é onipresente?
Latino: Além disto, é um critério muito laxo, que, embora contemple as diferenças, também possibilita enormes aberrações. Imaginemos que promovamos este encontro com o seguinte mote, encontrar os caminhos para um mundo melhor. Se não delinearmos certos critérios únicos para distinguir o que é um mundo melhor, abrimos um guarda-chuva para as maiores contradições. Ad exemplum, imaginemos que um grupo partidário do nazismo e fascismo se sinta oprimido por não poder expressar livremente suas ideias na sociedade ocidental atual e que, ao mesmo tempo, considere, segundo sua ideologia própria, que um mundo melhor implique o extermínio de judeus, negros, ciganos, árabes e qualquer raça não ariana, deveríamos convidá-lo para participar e debater conosco, segundo tal lato critério?
Agitação entre todos os integrantes.
Oriental Zen: Caros colegas, penso que podemos chegar a um consenso se abolirmos a conjunção alternativa “ou” e, em vez, de falar em revolução ou revoluções, podemos simplesmente optar pelo plural, pois teria a qualidade da ambiguidade de tratar-se de um conceito de amplitude histórica que contempla tanto os diversos processos revolucionários, fracassados ou não, ao longo da história como a possibilidade de incluir a multiplicidade de demandas atuais.
Integrantes da mesa se entreolham, congratulam, murmuram em acordo, e todos concordam.
Oriental Zen: A propósito, devo acrescentar, ao aparte do ilustre colega Lorde Inglês Decaído, que este vinho é um verdadeiro deleite. (sacudindo a garrafa vazia)
Integrantes da mesa se entreolham, congratulam, murmuram em acordo, e todos concordam. Garçom sai para buscar mais vinho.
Mediador: Bem, se não há mais objeções, podemos reformular nossa pauta do seguinte modo: Podemos hoje falar em REVOLUÇÕES, referindo-nos aos múltiplos movimentos de pressão para TRANSFORMAÇÃO, dentro de um cenário marcado pelo EGOÍSMO e pela total indiferença em relação ao SOFRIMENTO generalizado?
Latino mostra-se algo azedo, mas face à posição do Francês irredutível, não ousa prolongar o debate.
Mediador: Alguma outra objeção?
Todos olham para o Negro/Mulher com um olhar algo intimidador e este apenas gesticula que nada tem a acrescentar.
Mediador: Neste caso, exare-se a pauta e procedamos com as apresentações.
Os integrantes aplaudem exultantes ao enunciado final da pauta.
Francês irredutível: Desculpe-me por uma nova intervenção, mas antes de prosseguirmos com as apresentações, sugiro que façamos um pequeno intervalo, visto que não fora pouco o dispêndio mental e, por que não físico, requerido até o momento. Será útil para o sadio andamento da sessão, um justo e merecido descanso para um café, um cigarro e um pouco de ar.
Integrantes da mesa se entreolham, congratulam, murmuram em acordo, e todos concordam.
Mediador: Estaria de acordo, mas é preciso consultar com nossos apoiadores para saber como estamos de tempo.
Lorde Inglês Decaído: Se for o caso, proponho que eliminemos as apresentações. Afinal, de minha parte, sem vaidade alguma, prefiro que minhas ideias falem por mim, já que homens de ideias somos e os homens de ideias não devem desgastar-se com falar de homens, mas sim de ideias.
Francês irredutível: Estou de acordo. Não me incomodo em permanecer humildemente anônimo ante minhas próprias ideias.
Negro/Mulher: Para além disso, não me incluo, pois recomendam a etiqueta e a modéstia, mas como bem aclarou o ilustre mediador, vossa fama vos precede e dispensa maiores intróitos.
Integrantes da mesa se entreolham, congratulam, murmuram em acordo, e todos concordam.
Mediador: Neste caso, estando todos de acordo, eliminemos as apresentações e procedamos a um intervalo de não mais que quinze minutos.
Integrantes se levantam e afastam para o fundo do palco, onde confraternizam. Garçom se dirige ao público como conselheiro novamente.
Conselheiro/Garçom: Desculpai-me por esta imprevista pausa, mas há quem alegue que o trabalho, a faina intelectual exaure tanto, se não mais, que o labor físico e braçal. Peço-vos que compreendais, portanto, a humana necessidade de um pequeno descanso de nossos heróis. Claro está que os quinze minutos referidos pelo mediador não serão efetivamente quinze e mediante alguma elipse ou passagem de tempo o autor nos conduzirá em tempo à prometida e tão esperada ação. Para os mais mórbidos, violência e sangue, para os mais libidinosos, nudez e sexo. Mas, paciência, rogo-vos, tudo a seu tempo.
Conselheiro/Garçom sai do palco.
Fim do primeiro ato
I Ínterim
Negro/Mulher sai do grupo dos debatedores que ficam ao fundo comendo biscoitos, queijo, sucos e vinho.
Conselheiro/Garçom: Aproveitaremos este inevitável ínterim para passar algumas mensagens de nossos apoiadores. Com vocês, o jogo dos slogans!!
Negro/Mulher toma a frente do palco, luzes se intensificam sobre ela, cai papel picado sobre ela.
Negro/Mulher: Bem-vindos ao jogo dos slogans!!!!!! O jogo que dá prêmios incríveis e testa seus conhecimentos. (Negro/Mulher escolhe algum espectador do público) Vejamos quem participará hoje do jogo dos slogans. Qual é seu nome?
Espectador: (Diz nome, por exemplo, Lúcia).
Negro/Mulher: Muito bem, Lúcia. Você está preparada? Preparada para ganhar prêmios incríveis? Você terá um minuto para responder o máximo de perguntas que puder. Você pode ter até três erros e deve responder a pergunta dourada para ganhar o prêmio principal! Está pronta?
Espectador: Sim.
Negro/Mulher: Então, vamos lá! Valendo, tempo! De quem é este slogan: Bem-vindo à vida?
Espectador: Eco sport!
Negro/Mulher: Dedicação total a você!
Espectador: Casas Bahia.
Negro/Mulher: Muito bem. Desce macio e reanima.
Espectador: Dreher!
Negro/Mulher: Porque a vida é agora.
Espectador: Visa!
Negro/Mulher: A gente se vê por aqui!
Espectador: Globo!
Negro/Mulher: Um país de todos!
Espectador: Brasil!
Negro/Mulher: Refresca até pensamento!
Espectador: Brahma!
Negro/Mulher: Yes, we can!
Espectador: Obama!
Negro/Mulher: Com alguma coisa em comum!
Espectador: Free!
Negro/Mulher: Mil e uma utilidades!
Espectador: Bombril!!
Negro/Mulher: Muito bem, só falta a pergunta dourada! Quer parar ou continuar?
Se espectador quiser parar, ganha o prêmio consolação: um maço com o rótulo de todas as marcas, para montar seu próprio álbum. Se decidir continuar, segue a pergunta dourada:
Negro/Mulher: A pergunta dourada: O que é ser feliz?
Espectador provavelmente não saberá responder, tentará dizer muitas coisas ou ficará em silêncio. O tempo deve se esgotar e espectador perde.
Negro/Mulher: Quer pedir ajuda de alguém? Rápido que o tempo está acabando.
Espectador poderá pedir ajuda ou não, de qualquer maneira, não saberá responder e perderá.
Negro/Mulher: Ahhhhh... Faltou tão pouco. A resposta certa era: Ser feliz é comprar no Pão de Açúcar, lugar de gente felizzzzzzzzz!!!!!!!!
Negro/Mulher entrega prêmio consolação, maço de rótulos dos patrocinadores para criar seu próprio álbum. Caso, por qualquer razão, o espectador saiba responder e diga Pão de Açúcar, o prêmio será o mesmo, mas não mais apresentado como prêmio de consolação.
Negro/Mulher: E o nosso jogo dos slogans chegou ao fim, até a próxima semana! Lembrem-se de visitar o nosso site revolução joinha ponto com, sem acentos e cedilha, e comprar nossas camisetas insurrectas, temos várias estampas, Che, Fidel, Zapata, Sandino, Rosa de Luxemburgo, Lênin, Trotsky, Marx e muitos outros!!
Ato II – O blablabla
Debatedores retornam à mesa.
Mediador: Bom, às vezes parece que o tempo voa, mas tido o justo e merecido descanso, retomemos nosso histórico debate, divisor de águas da era moderna. Para tanto, repito a pauta deste encontro e cedo a palavra a quem quiser ser voluntário para dar início aos trabalhos. “Podemos hoje falar em REVOLUÇÕES, referindo-nos aos múltiplos movimentos de pressão para TRANSFORMAÇÃO, dentro de um cenário marcado pelo EGOÍSMO e pela total indiferença em relação ao SOFRIMENTO generalizado?”
Quem se voluntaria a dar início aos debates.
Todos levantam a mão ao mesmo tempo, com exceção do Negro/Mulher que demora um segundo antes de levantar.
Mediador (confuso): Creio que devemos estabelecer algum critério... alguém tem alguma sugestão?
Latino: Pitoco!
Francês Irredutível: Unidunitê!
Lorde Inglês Decaído: Mamãe mandou!
Oriental Zen: Palitinhos!
Negro/Mulher: Joquempó!
Mediador: Ok. Penso que podemos tentar o Unidunitê! Unidunitê, o escolhido foi você. (apontando para o francês irredutível).
Francês irredutível mostra-se satisfeito, os demais ficam resignados.
Francês irredutível: Um primeiro ponto que gostaria de destacar refere-se exatamente a
III Ato – O levante dos bárbaros
Do meio do público, começam a levantar-se alguns espectadores (atores misturados ao público).
Espectador 1: Chega de palhaçada! O que é isso? É teatro ou não?
Espectador 2: É, isso mesmo! A gente veio aqui para entreter-se, então, entretenham-nos!
Espectador 3: É, que porra é essa? Chega de blablabla, queremos a ação, a violência...
Espectador 4: A nudez, o sexo! Dionísio, Afrodite!!
Espectador 1: Ou nosso dinheiro de volta!
Espectador 2: Nós, espectadores queremos ver teatro! Somos o povo e exigimos que seja dado ao povo o que é do povo!
Espectador 3: Abaixo os personagens chatos!
Espectador 4: Morte aos diretores que se acham!!
Espectador 1: Morte aos dramaturgos que não pensam no povo!
Todos juntos começam a entoar em tom ameaçador:
Espectadores: Os espectadores, unidos, jamais serão aborrecidos!
Conselheiro/Garçom: Acalmai-vos, ó espectadores, sei que estais ávidos por sangue e carne! Mas rogo-vos um pouco mais de paciência!
Espectador 1: Chega!! Já se esgotou nossa paciência, queremos ação!
Espectadores começam a avançar rumo ao palco em câmera lenta enquanto cantam “Vem, vamos embora que esperar não é saber; quem sabe faz a hora não espera acontecer”. Cada um leva amarrado a si dois manequins para dar uma impressão de volume do levante. Os debatedores assustados começam a reagir cada um a seu modo. Lorde Inglês Decaído mete-se embaixo da mesa, Latino-americano corre de um lado ao outro, Negro/Mulher se junta à multidão, Oriental Zen tenta meditar, Francês irredutível fica paralisado e urina nas calças, Mediador pede calma e ordem. O "Povo" toma a mesa e traz das coxias a Guilhotina. Cada um dos debatedores é detido pelo "Povo". Há alguns confrontos, Negro/Mulher é estuprada pelo Povo de forma bastante farsesca, sem nenhuma nudez. Todos são finalmente detidos.
Espectador 1: Agora que assumimos o comando deste espetáculo, a ação começará sem mais delongas, sangue jorrará, cabeças rolaram! (Aponta à guilhotina) Que tenham inícios os trabalhos!
Espectador 2: O primeiro dos réus é o Senhor Francês Irredutível. Acusado de manter discursos progressistas absolutamente paralisantes e ao mesmo tempo mostrar-se completamente inerte, pensa que sua tradição intelectual francesa é o aval de sua incontestabilidade. Simpatiza com suas próprias vítimas, como se sorrir fizesse o dente dos vampiros algo menos temível. O povo desta comarca o considera culpado dos crimes acima e o condena a pena máxima, a saber, a morte por meio de decapitação na guilhotina, que muito apropriadamente foi inventada por um seu conterrâneo.
Espectador 1: O senhor deseja dizer algo em sua defesa?
Francês irredutível: (menos articulado que anteriormente) Entendo vossa ira e solidarizo com ela, peço-vos, contudo, que me poupeis, pois tereis em mim um guia valioso para o estabelecimento de uma nova ordem, afinal não se pode desprezar tantos anos de história assim sem mais nem menos! Somos os inventores da igualdade, liberdade e fraternidade, dos pilares da democracia moderna. Senhores, podemos dialogar! Não vos deixei cegar pela ira! Também inventamos os melhores vinhos! Senhores, por favor... Cortai-me os pés! A cabeça não, Senhores! Eu também sou comunista!
Espectador 3: É muito fácil ser comunista em Paris!
Espectador 4: (quase num murmúrio) Esperem...
Francês irredutível é conduzido à guilhotina e, apesar de suas súplicas e da tentativa de interferir do espectador 4, é executado. Sua cabeça rola (ver sugestão cenográfica anexa para a guilhotina).
Espectador 1: O próximo réu é o Lorde Inglês Decaído. Vampiro de ancestrais tradições, suga-nos o sangue e, mesmo com toda sua decadência, espera que respeitemos sua nobreza. Fala de Individualidade e Individualismo, mas pode vislumbrá-la somente naqueles que tem seu sangue azul. Veremos agora se seu sangue é realmente azul ou se como todos nós, defeca de medo e sangra o plasma espesso e avermelhado da dor.
Espectador 2: Sua culpa é inegável e sua condena é a morte na guilhotina! Quer dizer últimas palavras?
Lorde Decaído Inglês: Eu... não... eu entendo... senhores... Imagine all the people... living on their own... please, sirs!
Espectador 4: Não... parem...
Ninguém dá ouvidos ao espectador 4, e a execução continua. Cabeça rola ao lado da cabeça do Francês.
Espectador 1: (mais animado) Passemos ao próximo réu! O Latino.
Latino: YO??
Espectador 2: Sim, o senhor. É latino quando lhe convém, mas faz parte da mesma dinastia de vampiros que seus sucessores na guilhotina! Da mesma corja, é filhote deles e é ainda pior, pois vive de puxar-lhes o saco, de imitá-los, sua pele morena transpira e faz escorrer nojentas gotas mescladas com pó de arroz. Culpado! Convicto! À guilhotina!
Espectador 4: Não... isso não está certo...
Latino: Não! Eu sou explorado, como vós, também sou povo, sou latino, não me arrancai a cabeça, pois será sangue de um irmão na dor.
Espectador 3: Mais um personagem chato condenado! À guilhotina!
Latino é executado e sua cabeça rola com a dos demais. Voltam-se para o Oriental Zen que apenas medita.
Oriental Zen: Ôhmmmm...
Espectador 1: Mais um personagem deve morrer exemplarmente para que nenhum outro dramaturgo ouse criar figuras tão tediosas.
Oriental Zen: Ôhmmmm...
Espectador 2: Sim! Morte ao Oriental Zen!
Oriental Zen: Eu??? Por quê? Não fiz mal a ninguém, só como arroz integral e vivo no Nirvana. Ôhmmmm, acho que cada um tem seu caminho, seu carma. Não podemos mudar isso!
Espectador 4: Parem, não podemos continuar...
Oriental Zen é executado e sua cabeça rola ao lado da cabeça dos anteriores.
Espectador 1: O mundo já está quase limpo da infectante e pestilenta presença de sangue-sugas hipócritas. Faltam apenas dois!
Negro/Mulher: Dois?!? Por quê? Eu também sou minoria, sou oprimido como negro, oprimida como mulher, e agora decapitada? Não é justo! Além do que eu só queria dançar! Acho que devemos buscar outras formas de expressão para não submetermo-nos às tradições arianas e machistas dos dominadores! Fora! Morte aos personagens chatos! Vamos dançar!
Negro/Mulher é executado e sua cabeça rola com as demais. Tudo diante do olhar atônito do Espectador 4.
Mediador: Eu... eu sou apenas o mediador! Eu nem tenho opinião formada sobre nada! Se sou chato, entediante, é porque devo ser neutro, imparcial... Não se pode matar o Mediador, quem vai mediar vossas discussões? Sou eu! Não me matem!
Mediador é executado e sua cabeça rola com as demais.
Ato IV – Reconstrução
Conselheiro/Garçom: Finda a destruição é hora da reconstrução, e é este o momento mais tortuoso deste labirinto. Aqui retornam as tradições, as idiossincrasias, os vícios. Vejamos como se saem estes?
Espectador 1: Estão todos mortos...
Espectador 2: O que fazemos agora?
Espectador 3: Precisamos definir algumas metas.
Espectador 1: (aproxima-se da mesa e prova o queijo de cabra) Hummm, bom o queijo...
Espectador 2: (prova o queijo também) Hummm, é ótimo...
Espectador 3: (sentando-se e tomando um gole de vinho) O vinho também é uma delícia... (vê que a garrafa está vazia). Garçom! (estala os dedos e pede outra garrafa).
Garçom sai em busca de mais vinho. Os outros dois se sentam, Espectador 4 olha tudo atônito.
Espectador 1: (falando com a boca cheia) Acho que deveríamos definir uma pauta para este momento fundamental. Aqui se fundarão as bases do novo teatro, da nova sociedade, do novo! Viva o novo!! O sangue que jorrou não foi embalde e ex nunc o mundo será outro.
Espectador 2: Proponho que o senhor, ou melhor, vossa excelência se encarregue da pauta, visto que domina com destreza a oratória.
Espectador 3: Secundado.
Espectador 1: Obrigado, ilustríssimos colegas. (para o espectador 4) E o senhor, não se unirá a nós?
Espectador 4: Não percebem? Todo esse sangue derramado? Todas as vidas ceifadas para quê? Para sermos como eles?
Espectador 1: Não somos como eles! E os fins justificarão os meios, as futuras gerações nos agradecerão!
Espectador 4: Não, os meios determinarão os fins!
Espectador 2: Proponho que prossigamos com a definição da nossa pauta, já que estamos ad hoc reunidos.
Espectador 3: Sim, e proponho como pauta preliminar, caso vossas excelências estejam de acordo, seja a respeito da obrigação que toda peça de teatro deverá ter de cumprir seus objetivos dramáticos, a saber, entreter a multidão, a plebe!
Espectador 1: Ex nunc toda obra teatral deverá cumprir com duas funções básicas, uma que deve voltar-se aos sentimentos, às emoções, e outra à razão, à crítica! Devemos encontrar o equilíbrio perfeito do que eles querem ver e o que nós queremos dizer.
Espectador 4: Mas nós somos eles! Agora estamos nos tornando outros!
Espectador 3: Proponho que se ponha em votação imediatamente a expulsão deste senhor que parece querer trair nossa luta.
Espectador 2: Apóio a moção do ilustre colega.
Espectador 1: Com meu voto, obtemos maioria e fica determinada a expulsão do Espectador 4 do Comitê dos Espectadores!
Espectador 4: Não posso ser expulso!
Espectador 1: Se quiser pode pegar seu dinheiro de volta.
Espectador 4: Não foi para isso que nos levantamos. Não foi para sermos entediantes e enjoativos como eles. Aliás, por que foi que nos levantamos? Nos levantamos porque somos joguetes de um perverso titereiro que nos embaralha e dispõe a seu bel-prazer. A única forma de libertar-nos é cortar os cordéis, a liberdade é dolorosa, por isso a temeis, não buscai as respostas no passado, mas não o desprezai,
Assinar:
Postagens (Atom)